Relato Único sobre os Bastidores de um Investimento de Warren Buffett!

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Em 2009, o governo americano montou a Financial Crisis Inquiry Commision, (ou Comissão de Inquérito da Crise Financeira, em português) uma comissão de dez membros que foi montada com o objetivo de investigar as causas da crise financeira mundial (que começou nos Estados Unidos) de 2007 e 2008. A comissão tinha poder de intimar empresários, investidores, políticos ou qualquer tipo de pessoa a prestarem depoimentos. Tinha o poder também de quebra de sigilo para analisar documentações.

Uma pessoa que foi questionada por esta comissão foi Warren Buffett.

A entrevista abordou temas como o investimento de Warren Buffett na agência de classificação de risco Moody’s, como ele achava que estourou a crise, as suas ideias sobre as políticas fiscais e regulamentações, e uma série de outros assuntos. Apesar de a entrevista ter acontecido em 2010 e a comissão ter reportado as suas conclusões em 2011, a sua transcrição foi liberada apenas em março de 2016.

Se o seu inglês for bom, você pode ler todas as 103 páginas da entrevista neste link, que mostra uma entrevista fascinante.

Mas em apenas algumas páginas, Warren Buffett dá um depoimento único sobre os bastidores do seu processo de investimento.

Vamos explicar um pouco sobre como aconteceu a situação:

Buffett investiu na Dun & Bradstreet em 1999 e 2000, uma empresa que vende dados comerciais para outras empresas (como essas que vendem informações de você para operadoras de cartão de crédito). A empresa foi fundada em 1841. Em 2000, a Dun & Bradstreet fez uma cisão com a Moody’s (uma das maiores agências de classificação de risco de crédito do mundo, que a D&B comprou em 1962) e passou a listar o seu capital na bolsa de valores separadamente — o que deu a Warren Buffett ações próprias da empresa, além das que tinha da Dun & Bradstreet.

As maiores agências de classificação de risco (Moody’s, Standard & Poors, e Fitch) foram duramente criticadas ao longo da crise financeira de 2007-2008 por darem avaliações ótimas (AAA) para hipotecas de subprime — o que acabou tendo uma grande contribuição para a crise.

Então os entrevistadores da Comissão de Inquérito da Crise Financeira começou a entrevistar Buffett perguntando como ele decidiu investir na Moody’s e qual era o envolvimento dele com a empresa. A entrevista foi levemente editada para que tivesse a leitura mais fácil. Aproveite!

Warren Buffett e como ele decidiu investir na Moody’s.

BONDI: Eu entendo, senhor, que em 1999 e em Fevereiro de 2000, você investiu na Dun and Bradstreet.

BUFFETT: Está correto. Eu não sei de cor as datas, mas me parecer certo. Sim, senhor.

BONDI: E eu estou correto, senhor, em dizer que você não fez nenhuma compra após a cisão da Moody’s com a Dun and Bradstreet.

BUFFETT: Eu acredito que está correto.

BONDI: Certo. Que tipo de due diligence você e a sua equipe tiveram quando compraram pela primeira vez a Dun and Backstreet em 1999 e então novamente em 2000?

BUFFETT: Sim. Não existe equipe. Eu tomo todas as decisões de investimento, e eu faço todas as análises. E foi basicamente uma avaliação da Dun and Bradstreet e da Moody’s, mas da natureza econômica de seus negócios. E eu nunca encontrei com ninguém.

Dun and Bradstreet tinha um negócio muito bom, e a Moody’s tinha um negócio ainda melhor. E basicamente, a decisão única mais importante ao avaliar um negócio é o poder de precificação. Se você tem o poder de aumentar o preço sem perder participação de mercado para um concorrente, você tem um grande negócio. E se você tiver que rezar antes de aumentar os preços em apenas 10%, então quer dizer que você tem um negócio terrível. Eu já investi nos dois tipos, e eu sei a diferença.

BONDI: Agora, você já descreveu a importância da qualidade da administração em suas decisões de investimento, e eu conheço o seu mentor, Benjamin Graham – Acontece que eu já li o livro dele também – que descreve a importância do gerenciamento.

O que atraiu você na administração da Moody’s quando você fez o seu investimento inicial?

BUFFETT: Eu não sabia nada sobre a administração da Moody’s. Eu também falei muitas vezes em artigos e em outros lugares que quando um administrador com uma reputação brilhante entra em um negócio com reputação econômica ruim, é a reputação do negócio que permanece intacta. Se você tem um negócio bom o suficiente, se você tem um monopólio em um jornal, uma emissora de televisão (Eu estou falando do passado) você sabe, o seu sobrinho idiota poderia administrá-lo. E se você tiver uma negócio realmente bom, isso não faz diferença.

Quero dizer, haverá alguma diferença talvez na alocação de capital ou algo deste tipo, mas o negócio extraordinário não requere boa administração.

Eu não estou fazendo nenhuma referência a administração da Moody’s, eu realmente não conheço eles. Mas se você é dono do único jornal da cidade, até pelo menos os últimos cinco anos ou um pouco mais, você tem poder de precificação e você não teria que aparecer no escritório.

BONDI: E eu vi em muitos lugares que você foi citado como um investidor passivo na Moody;s. É uma alegação justa, e quais tipos de interações ou comunicações você teve com a diretoria e com os administradores da Moody’s?

BUFFETT: Bem no começo, existia um cara chamado Cliff Alexander que era o presidente da Dun and Bradstreet enquanto eles estavam fazendo a cissão.

Eu conheci ele por causa de alguns contatos, anos antes; e então nós almoçamos uma vez. Mas ele não era um gestor operacional. Era um tipo de supervisor da cissão.

Como nós realmente possuímos ações da Dun and Bradstreet e da Moody’s quando elas se separaram, eu nunca fui no escritório da Moody’s, eu acho que nunca liguei para eles. Eu diria que três ou quatro vezes como parte de um road show, o CEO e o RI passaram no meu escritório e – e eles acharam que tinham que fazer isto. Eu não tenho nenhum interesse nisso basicamente, e eu nunca solicitei um encontro. É apenas – é o que eles pensam sobre como a relação com investidores deve ser feita. E nós não acreditamos muito nestas coisas.

BONDI: O que você me diz sobre membros do conselho? Você já apoiou a eleição de algum membro do conselho da Moody’s?

BUFFETT: Não, não. Não tenho nenhum interesse nisso.

BONDI: E nós conversamos apenas sobre comunicações verbais. Você já enviou alguma carta, memorando ou ideias para as estratégias da Moody’s?

BUFFETT: Não. Se eu achasse que eles precisavam de mim, eu não teria comprado nenhuma ação.

BONDI: Em 2006, a Moody’s começou a recomprar as suas ações, recomprando ações que estavam supervalorizadas, e eles fizeram isso entre os anos de 2006 e 2008, de acordo com nossas informações.

Por que você não vendeu suas ações para a Moody’s nessa época? Eu sei que subsequentemente em 2009 você vendeu algumas ações, mas de 2006 a 2009, ao longo da recompra de ações, você considerou vender as ações, e se sim, por que não vendeu?

BUFFETT: Não, eu achava que eles tinham um negócio extraordinário, e – você sabe, eles ainda tem um negócio extraordinário. Agora estão sujeitos a uma ameaça diferente, que nós ainda vamos chegar nisso depois, eu tenho certeza.

Mas eu cometi um erro nisso que chegou a preços muito altos e nós não vendemos – não faria nenhuma diferença se estivéssemos vendendo para eles ou para o mercado. Mas existe muito poucos negócios que tinha a vantagem competitiva que a Moody’s e Standard and Poor’s tinham. As duas estão na mesma posição, essencialmente. Tem muito poucas empresas assim no mundo. É duopólio natural até certo ponto. Agora, isto pode ter mudado, mas tem sido historicamente um duopólio natural, onde qualquer um que viesse e oferecesse o serviço pela metade do preço não teria nenhuma chance de sucesso. E não existe muitos negócios onde alguém vem e oferece algo pela metade do preço e ninguém pensa em trocar de empresa. Mas é a natureza do negócio de classificação de risco. E é naturalmente obtido.

É apoiada pelo fato que as duas se tornaram padrão para os reguladores e tudo mais, então tem sido auxiliada por ações governamentais ao longo do tempo. Mas é um duopólio natural.

Warren Buffett e Modelos de Investimento.

BUFFETT: As agências de rating, elas tem modelos, e todos nós temos modelos na nossa cabeça, você sabe, quando estamos investindo. Mas eles tem todos os processos prontos, com muitas checklists e tudo mais.
Eu não acredito nisso.
Tudo que posso dizer é, eu tenho um modelo na minha mente. Todos tem modelos quando estão investindo. Mas a confiança em seus modelos, você sabe, existe 98 por cento do tempo, mas nunca 100 por cento do tempo. E todos devem perceber que isso acontece ao usar modelos.

Conclusão

Então quais são as conclusões que podemos ao olhar para os bastidores?
Bem, primeiramente eu ainda acho o processo de investimento de Buffett incrível. Qualquer outra firma de investimento do mundo tem analistas, estrategistas, modelos financeiros complexos, equipes lotadas de pessoas e comitês de investimentos. Buffett, por outro lado, faz as suas próprias análises e utiliza modelos e processos criados na sua cabeça. É incrível.
Segundo, Buffett nos mostra que “a decisão única mais importante ao avaliar um negócio é o poder de precificação. Se você tem o poder de aumentar o preço sem perder participação de mercado para um concorrente, você tem um grande negócio.”  A Moody’s tem poder de precificação porque faz parte de um duopólio. Se você quer avaliação de crédito, você basicamente deve ir até a Moody’s ou S&P ou até a Fitch que são as únicas empresas de avaliação de crédito reconhecidas nacionalmente pela SEC (como a CVM no Brasil). Então nenhuma outra empresa consegue ganhar os clientes, nem cobrando a metade do preço.
Quando criança Buffett costumava sentar na varanda da casa de seu amigo e ver os carros passarem em frente a casa no horário do rush. Um dia ele disse para a mãe de seu amigo, “Todo este tráfego. É uma vergonha que você não esteja ganhando dinheiro com estas pessoas que passa. Uma vergonha, Mrs. Russell.” Mesmo o pequeno Warren de 9 anos de idade estava pensando sobre negócios, e queria que a mãe de seu amigo criasse uma cabine de pedágio.E foi assim que ele sempre pensou sobre negócios e investimentos. Buffett sempre procurou negócios com um grande fosso – negócios que tem uma grande, única e sustentável vantagem competitiva que resulta em poder de precificação e grandes retornos sobre o capital investido.

 

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